X – a última incógnita

Este conto foi publicado na coletânea “Solarium – vol. II” em 2009 pela editora Multifoco.

X

A última incógnita

Por Sabine Mendes Moura

São Paulo, Brasil.

9 de Maio de 20XX – um futuro não muito distante.

23:45

Anna dedilhava o teclado do computador como uma pianista esquecida de seu amor pelas notas. A mente trabalhava a mil por hora e os dedos não davam conta de representar em texto as indas e vindas de teorias expressas em corte e colagem de citações de autores famosos. Buscava ter co-presente o fato de que aquilo não era uma tese de doutorado. Não, aquele era tão somente o esboço de uma justificativa para um novo projeto. A demanda era, uma vez mais, buscar solucionar as falhas de comunicação e a falta de comprometimento dos funcionários de uma empresa qualquer, uma pessoa jurídica sem rosto em forma de corporação transnacional. Quando fora contratada como consultora, explicara que gostaria de trabalhar no escritório da empresa bem depois de seu expediente normal. Não fosse sua reputação, jamais teria a permissão de estar no vigésimo nono andar da Multitech Inc., totalmente desacompanhada, a não ser pelo monitoramento de ocasionais fly-spies, os mini-robôs vigilantes que, de tempos em tempos, voavam em rasante por sobre sua mesa.

O encarregado por sua contratação, visivelmente nervoso, chegara a comentar que seu trabalho poderia ser feito home-office, com passe livre às imagens de reuniões e interações em geral entre funcionários de diferentes escalões, para que ela pudesse propor novas soluções de motivação e comunicação. Acrescentou que seus contratantes estavam preocupados com resultados e não com cargas horárias. Será que ela não preferiria realizar seu trabalho “no conforto de seu lar?”, perguntara ele. Anna sorriu diante da expressão antiga que sua mãe também usava. Em seguida, com uma série de justificativas relacionadas à necessidade de “sentir o clima da empresa para melhor apoiá-la em possíveis reestruturações”, disse-lhe que só realizaria o trabalho caso ele pudesse garantir-lhe duas coisas: a utilização do espaço após o expediente e a possibilidade de fumar no ar condicionado. Sentia-se uma celebridade fazendo isso e quase tinha pena do pobre sujeito que agora teria que aquiescer a suas exigências, seguramente enfrentando um sem número de impedimentos burocráticos.

Na verdade, o fato é que seu lar não combinava, atualmente, com a palavra conforto. Filha de uma acadêmica brasileira cujos projetos de pesquisa acabaram por faze-la conhecer e se enamorar por um sisudo intelectual boliviano, seu pai, Anna estava reproduzindo o fracasso do casamento de seus pais em seu próprio relacionamento. Seu marido ainda não se mudara, em definitivo, infelizmente. A situação toda fazia com que refletisse sobre suas demandas profissionais: ao contratarem-lhe como consultora, as empresas queriam, na verdade, que ela resolvesse o problema do século. O problema de como dar sentido as ações humanas e como ajudar que as pessoas se comunicassem sem tensões em um mundo aparentemente tão propício à comunicação. E o que ela fazia era esquecer todas as teorias de pós-graduações e leitura acumulada e propor que as pessoas se conhecessem melhor. O autoconhecimento nunca fora matéria em nenhum de seus cursos avançados e, no entanto, era a única maneira que ela conhecia de mudar o clima de uma organização. Assim, era contratada por seus títulos, mas eles nada tinham a ver com o método que realmente utilizava, na prática, para conseguir resultados.

Os computadores sem monitor – cuja visualização era feita mediante projeção holográfica – ainda a confundiam. Estava lutando com uma tecla flutuante de “salvar” que se recusava a arquivar seu texto quando o relógio no canto da projeção indicou meia-noite. Imediatamente, um aviso de novo e-mail despontou no quadrante direito.

Uma mensagem cujo remetente era um emaranhado de yyy e xxx e hhh, dentre outros caracteres sem sentido. Estava prestes a apagá-la como manda o figurino.

“Vírus”, pensou automaticamente.

Porém, ouviu a frágil voz de sua intuição e abriu o e-mail.

E a sala se encheu de som. Era um concerto de Mozart que ela não reconheceu de imediato.

Mozart, concerto número 23 para piano. Lágrimas inundaram seus olhos. A tela escureceu. “Um vírus, certamente”, pensou. A lógica irrefutável retornando à sua mente aos poucos.

Uma mensagem piscava em espanhol. Descia girando ao centro da tela como se dançasse ao som da música:

Bienvenida a X – la última incógnita!”

Uma janela se abriu:

Digite su contraseña

Uma voz, em sua mente, lhe dizia: “Reconciliación...”.

Outro lado de sua mente intelectualizava: “De onde vem essa voz? Estou alucinando! Sonhando! Dormi e me perdi e…”. Mas ela sabia que estava acordada e ouvira de alguma maneira muito física a Voz que dizia, quase sussurrando:

Re-con-ci-li-a-ci-ón, nena”. E era a voz de sua mãe, mas falava espanhol.

Ela digitou a palavra no campo senha.

Washington D. C.

10 de Maio de 20XX

04:05

Henry Carlson estava visivelmente nervoso. Poder observar isso em alguém como ele era uma raridade e, seguramente, nem todos os seus colegas de trabalho podiam percebe-lo. Seu nervosismo estava manifesto tão somente na maneira pela qual ele, de tempos em tempos, trocava o peso de uma perna a outra, em busca de um equilíbrio perdido. O hall estava lotado, vários escalões da agência representados. As luzes de emergência estavam acesas. O edifício era como uma gigantesca casca oca: vazio, morto, sem função. Tudo estava parado e o último indicador de civilização estava, precisamente, nas luzes de emergência do gerador. Começou seu informe:

– Às 22 horas de quarta-feira, 9 de Maio, horário local, usuários de microcomputadores ao redor do mundo decidiram abrir um e-mail com endereço suspeito que normalmente, aqueles com mais experiência em relação a vírus, não teriam aberto. Eu mesmo…” – disse ele, a voz falhando pela primeira vez – “Eu mesmo, bem como vários dos aqui presentes, me deixei levar pelo…”

A voz embargada impediu-o de continuar. Pediu um copo de água, trazido prontamente por alguém da assistência, tomou um gole vagaroso e seguiu.

– Versões em inglês, espanhol, japonês, chinês e hindu da mesma mensagem mencionando X como a última incógnita e ao som do concerto número 23 para piano de Mozart foram exibidas para milhões de pessoas em diferentes momentos de seu dia. Todas as pessoas contatadas até o presente momento parecem referir-se a uma espécie de alucinação coletiva em que ouviram uma voz familiar de seu passado indicando que a senha pedida seria a palavra “reconciliação”. O vírus venceu defesas bem construídas contra lixo eletrônico em diferentes países penetrando sistemas governamentais e privados. Gerou uma onda de pânico generalizada, a inutilização de sistemas de transporte, comunicação, segurança, suprimentos e infra-estrutura. Neste exato momento, temos policiais, bombeiros e voluntários no mundo inteiro ocupados em operações de resgate, controle de danos em plantações automatizadas e 70% das grandes cidades do mundo estão sem luz e sem acesso à comunicação mínima. É uma crise como nunca antes enfrentamos e nossa única forma de comunicação são sistemas amadores, peças de museu quase, de telegrafia e rádio, conservados por alguns amantes da história das telecomunicações ao redor do mundo. Já identificamos os trinta principais equipamentos de comunicações independentes da Internet. Obviamente, é difícil localizar os responsáveis por esse ataque terrorista, dadas as condições. Não temos nenhuma pista de como isso possa ter acontecido. Nem os computadores operando redes paralelas experimentais foram poupados…”

Enquanto seguia com sua explicação da situação atual, designando tarefas para seus homens, a lembrança vívida da voz de seu pai dizendo-lhe a senha, como ao pé do ouvido, teimava em perturbar-lhe a concentração. A voz de barítono dizia, incansavelmente: “Reconciliation”.

Isla Del Sol, Bolívia.

9 de Maio há trinta anos atrás

23:45

Aquele era o antigo santuário das virgens dedicadas ao Deus Sol, uma inspiradora ilha em meio ao lago Titicaca. Rodrigo Apaza sentia-se o homem mais triste do planeta, em meio aquele lugar sagrado, observando como a mulher que ele amava partia, pouco a pouco, sem realmente partir. Ângela estava a seu lado, mas distante. Podia ler em seus olhos a saudade que sentia de sua terra brasileira, tanto quanto podia prever a beleza de sua futura filha, Anna, a partir das incríveis tonalidades de seu cabelo cor de mel. Estava certo de que seria uma filha e estava quase tão certo de que seria criada longe dele, embora nada houvesse sido dito. Ainda.

Rodrigo nunca tivera tempo de cumprir a promessa feita à Ângela de mostrar-lhe os lugares que representavam, de certa maneira, o passado com o qual talvez nunca tenha se reconciliado. Agora, percorria tais lugares com ela, em suas férias conjuntas. Talvez na esperança de que, cumprindo sua promessa, ela voltasse a conectar-se com ele. Sempre estivera muito ocupado com palestras, conferências, aulas. Ocupado demais para demonstrar à estrela de sua vida o quanto ela brilhava em seu coração.

Naquele dia, estavam sentados em uma formação rochosa no topo da ilha, pouco acima da casa em que estavam alojados e observavam o Titicaca.

–   Que vamos fazer se, algum dia, nos separarmos, Rodrigo? – ela perguntou, finalmente, cortando-lhe o coração.

–   Vamos seguir juntos, em nossos corações – respondeu ele, após um longo silêncio.

–  Não é você, mi amor. Há muita coisa de antes, coisas do passado. Não há forma de mudar o presente sem reconciliarmo-nos com nosso passado, no es cierto?

Então,  Rodrigo sentiu que compreendia. Sentiu uma profunda conexão com Ângela, com sua filha e com todos os outros seres humanos que viviam sobre aquela Terra buscando libertarem-se de um passado que pesava e que não compreendiam. Reviu sua infância em flashes: o conflito com suas origens aymara e, ao mesmo tempo, a beleza de pertencer, de alguma maneira, aquele povo sofrido. Percebeu com clareza que, não importa a origem dos conflitos, todos os tinham e todos buscavam supera-los.

–   Façamos um pacto e um pedido – disse ele, comovido – Não seria lindo que todas as pessoas da Terra recebessem essa mensagem? Uma mensagem de esperança, uma mensagem de reconciliação profunda. Vamos pedir, mi amor, pedir por um dia em que a Terra pare de girar, o mundo pare de funcionar por um instante. Um instante grande o suficiente para que cada um possa perceber que sem nos reconciliarmos com quem fomos, nunca seremos quem podemos ser.

Ângela sorriu e chorou, ao mesmo tempo. Deram-se as mãos e, cada um a seu tempo, cada um a seu deus, pediram por si mesmos, por sua filha, por suas famílias e por todos os seres humanos perdidos em busca de paz. O relógio indicou meia-noite e sentiram que algo novo começava dentro deles, junto com o novo dia.

Rio de Janeiro, Brasil

10 de Maio de 20XX, um futuro não muito distante.

11:45

Juliana cruzava a cidade em um pequeno veículo automatizado. Tinha em mãos um pequeno aparelho em cuja tela estavam os links para as aulas virtuais em que estava inscrita. Clicou no que se referia à disciplina: “Intencionalidade e Telecomunicações –01”. Hoje teriam uma conferência com uma especialista equatoriana. Abriu-se uma conexão direta com a videoconferência. A Doutora em Intencionalidade Humana era jovem e falava em espanhol claro, subtitulado. A aula já havia começado.

–  … o primeiro evento de que se tem notícia em relação à descoberta do efeito da intencionalidade humana e da energia psíquica focada em conexões não-humanas foi o Grande Vírus de 20XX, há trinta anos atrás. Naquele momento, milhões de pessoas no mundo inteiro receberam um e-mail convocando-as à reconciliação profunda. Era um momento, como vocês sabem, de extrema violência e ameaça nuclear. Especialistas tentaram, ao longo de dez anos, identificar a origem do vírus sem sucesso. Somente quinze anos depois, quando outras manifestações em equipamentos de intenções claramente colocadas começaram a surgir, a Intencionalidade e o estudo do Psiquismo Humano ganharam status de ciência. Naquele momento, havia estudos sobre o poder da mente em estágios muito iniciais e experimentos sobre o poder da meditação em grupo para alterar contextos de extrema violência. No entanto, não eram levados a sério. Os relatos que chegam a nós, em relação ao Grande Vírus, contam que quem abrisse o e-mail tinha que prover uma senha e que esta senha vinha-lhes à mente na voz de alguém querido de seu passado. Ao digitarem a senha, cada um dos afetados pelo vírus voltava em seu espaço de representação interno, ao momento mais complicado de seu passado e registrava a oportunidade de superar seu ressentimento. Após vinte e quatro horas da infecção, todos os sistemas voltaram ao normal, como se nada tivesse acontecido”.

Juliana tentou imaginar como teria sido viver à época do Grande Vírus. O mundo estava muito mudado. A violência já nem poderia ser concebida como forma de resolução de conflitos. Na verdade, muitos nem sequer a compreendiam. Sentiu uma profunda conexão com o que havia por trás daquele conto.

O que há de verdadeiramente sagrado no humano nunca morre e está sempre buscando uma forma de expressar-se.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s